A Cisma foi ao Médico I - evolução

12:00

Desde o inicio dos ataques de pânico, ganhei um medo enorme com tudo relacionado com médicos, seja uma visita a alguém internado, exames de rotina ou o simples cheiro tão característico do Hospital.

Aliás, sempre tive medo, como uma pessoa normal que era até então, tanto medo que uma vez ao levar uma vacina, minha pressão baixou e quase desmaiei. Porque sou uma lady e as ladies desmaiam, por isso, não me julguem ahah!

Mas quando os ataques de pânico começaram, ganhei uma nova posição fase à Medicina: Amor/Ódio.
Sabia que era nela que ia encontrar a solução para os meus problemas, problemas esses que precisavam de acabar urgentemente (senão dava em doida com tanto medo), mas que gerava toda uma nova camada de nervosismo quando havia o simples pensamento que tenho de ir ao médico. 

Lembro-me que há dez anos, quando tudo isto começou, minha mãe ficou tão assustada que marcou consulta com o médico de família. 

Eu fui, mas antes tive de passar por todo o ritual de pelo menos 3 dias antes da consulta, onde não conseguia dormir, comer, vomitava o pouco que comia e tomava comprimidos, que nada tinha haver com o que sentia, mas que me ajudavam a acreditar que estava bem.
Cheguei à consulta com aspecto digno de Óscar. Esse mesmo: daqueles actores que emagrecem brutalmente para um papel, apresentam olheiras do tamanho do mundo, pele amarelada e um olhar com um misto de pânico e de «ide-vos todos f*der que eu é que mando nesta m*rda toda!».

O médico lá disse que era pânico e tal, mas pelo sim pelo não, para fazer exames de sangue e urina. Eu fiz os exames claro, mas sem antes passar, outra vez, por todo o ritual de auto-destruição.

O nervosismo era tanto que muitas das vezes nem provocava vómito para me acalmar. Ele vinha, sozinho, no seu tempo. Era tal a ânsia que sentia que comecei a convencer-me que não havia remédio para o que sentia, e que daqui às drogas pesadas para aliviar isto, era um passinho. O desespero era tanto que tudo o que me fosse parar à mão com a garantia de uns minutos de paz, eu tomava! Felizmente (agora), vivia numa vila e para fazer tais contactos e para adquirir tais produtos, iria ser vista por alguém e os meus pais descobririam na hora - não fosse o meu pai um dos homens mais conhecidos na vila, pelas suas longas horas de conversa e de baralho nos cafés locais.

Fiz os exames, com muito medo. Mas um misto de alivio abateu-se sobre mim quando os concluí, daquela que já não sentia há imenso tempo..., porém a alegria foi curta, pois mal saio da sala, vem o terrível medo de «é agora que vão descobrir que tenho uma doença qualquer, eu sei. Eu sinto». E depois, começa toda uma cena digna de cinema, e que mantenho até hoje: sempre que sinto que algo vai mudar para sempre, para melhor ou pior, parece que tudo à minha volta congela; o tempo pára; as pessoas parecem estar a falar devagar e tudo parece ser tão insignificante em comparação com a dor que sinto que desligo-me. Fico distraída, não oiço ninguém e aparece a vontade súbita de chorar. Não o fiz naquele momento tal era a minha vergonha, mas chorei mal cheguei a casa. Em silêncio, como sempre choro, para ninguém ouvir, para não preocupar ninguém.

Até receber a carta, melhorei e aprendi a conviver com aquela ansiedade. Aprendi e dizia-lhe bom dia, todas as manhãs. Já estava habituada e preferia a sua companhia à companhia de uma outra doença, pois esta já me era familiar. Tão familiar que mal chegou a carta com os resultados dos exames, eu rasgo o envelope, vejo os resultados com o coração na boca, reparo que está tudo dentro dos parâmetros considerados normais e guardo a carta na gaveta. A esta altura do campeonato, uma consulta para mostrar os resultados iria acabar comigo. Mesmo sabendo que os meus exames não apontavam nada de mal, eu tinha medo. Ainda tenho medo. Lá sei se por ordem e graça de um Deus dos médicos, ele olha para aquilo e diz que tem de fazer outros exames. Não não! Não quero, não preciso, não posso voltar a sentir tudo isto outra vez! Quero dizer bom dia à minha ansiedade todos os dias, mas ela não pode responder-me com cheiro de hospital e de bata branca. Prefiro que ela tome forma de outros medos bem mais urgentes de serem enfrentados.

É tudo tão irracional, eu sei, mas esta é a vida de um hipocondríaco e de pessoa que sofre com ataques de pânico, e todos seus os irmãozinhos, que vieram com ele viver nesta casa. Prefiro estes monstros familiares a outros novos. E assim foi durante uns 6 anos ou mais.

Na semana passada ganhei coragem e marquei, sozinha, uma consulta com médica de família. Meu irmão disse que ela era nova e simpática. Então 'bora lá...
Marquei por causa de um caroço que me aparecei no queixo, mas fiz uma lista de todos os «males» que tinha e não ia sair dali sem os papeis para fazer os malditos exames de rotina. Tinha de os fazer, senão esta fase de hipocondría nunca mais morria para dar lugar ao medo normal que todos têm dos médicos e afins. Preciso de uma prova, de um papel, ao qual me possa agarrar e depois dizer para mim própria «vês? tudo normal!! Pára de pensar em m*rda!».

E ontem foi o dia do teste. Tinha de ultrapassar mil e um medos numa só consulta, e eles eram: ir sozinha; entrar sozinha na sala; manter a calma; explicar tudo e nada ocultar; e sair de lá mais calma do que entrei.
Ora bem: sozinha, check; entrar, check; manter a calma, (tirando o momento em que me dizem que tenho uma vacina em atraso) check; explicar tudo, check; sair mais calma, double check.
Um grande passo, sem dúvida e se pudesse dava uma daquelas palmadinhas nas minhas próprias costas. 
Não só consegui fazer o planeado, como consegui manter a calma (aparente) quando me disseram que ia tomar, ali e agora, a vacina que andava a esquivar-me há dois anos. Sim, agulhas e eu não nos damos bem. Mas sentei-me na sala de espera, a enfermeira chamou-me, calmamente expliquei que tenho pressão baixa e que quando fico nervosa fico meia tonta, ela mede a pressão, disse que estava boa e pronto, vacina tomada.

Agora ao escrever isto vejo realmente o ridículo da situação. 
O exagero. Tanta gente a passar por coisas piores e eu aqui a escrever isto...mas o que é um medo normal para ti, é a «cerca» para mim. A cerca que me limita a toda a hora de fazer algo novo. É a cerca que tanto me irrita como me aconchega. É o vicio psicológico de ver ali, neste medo, nesta cerca, a minha área de conforto, da qual nunca devo sair se não quero passar mal, mas que preciso - urgentemente- saltar.


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15 Comments

  1. Sério, fiquei muito feliz com sua superação, minha psicóloga sempre me diz para comemorar essas pequenas coisas (que na verdade, para nós, são GRANDES passos), então fique feliz mesmo, você se superou... Um passo de cada vez, dia após dia, o importante é não desistir. E não diga que a situação é ridícula, porque não é... o "normal" é muito relativo e você não tem culpa de sentir tanto medo assim... Torcendo por você, sempre!! =)

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    1. eu sei que não é ridiculo. a palavra que escolhi no texto não foi a mais correcta, confesso. mas deu para entender. acho que o mais correcto era «drama», porque no fundo é uma espécie de drama, um exagero criado nas nossas cabeças, que por mais desnecessários que sejam, constituem uma batalha necessária de ser vencida.
      quanto ao comemorar, tento sempre. não é todos os dias que se vence medos destes que ocuparam um espaço tão grande nestes dez anos :D
      Obrigada pelo apoio Michele :D
      Beijinho

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  2. Todos nós temos as nossas cercas, e em certa altura ria-me de pessoas em que tal como tu ( se interpretei mal desculpa) tinham medo das idas médico ou dentista, ou que choravam e desmaiavam ao verem uma aranha. Mas ria a bom rir, na minha ignorância,de como uma pessoa podia ter medo de uma coisa tão banal, até que um dia, claro, fui castigada. Agora tenho medo, talvez, de uma coisa tão banal como tudo o resto, tenho medo do vento. E tal como tu tenho ataques de ansiedade, os dias antes que forem precisos porque me lembrei em ir à metrologia e sei que vai fazer tempestade ... Agora sei o que as pessoas passam com as suas "cercas" porque eu tenho a minha, e não acredito que seja irracional, pelo contrario somos nós que racionalizamos que temos medo de tal coisa e depois o corpo responde...
    Não digas que é ridículo, porque cada um têm a sua limitação...

    Desculpa pelo comentário longo e pelo desabafo, mas apesar de não ser a mesma situação, não estás sozinha :)

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    1. tu aqui não tens de te desculpares por te desabafares, está à vontade. eu é que tenho de pedir desculpa por demorar a responder. Eu normalmente vejo na hora os comentários mas quando vejo que não é pessoal a pedir ajuda urgente, eu deixo para responder para quando tiver mais tempo. Por isso, mil desculpas!

      pois, não interpretaste mal não mas esse «rir» realmente pesa muito na mente de uma pessoa como nós. há que sempre respeitar a limitação do outro. infelizmente aprendeste isso da pior maneira :/
      força, sim? também não estás sozinha! Beijinho *

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  3. Não é exagero nenhum, é perfeitamente normal. Eu tenho tendência a ter a pulsação acelerada, um pouco causado pela ansiedade, nada em exagero, mas numa situação normal a minha pulsação consegue estar a 120 ou mais, e piora quando sei que a vou medir. No entanto, temos de enfrentar esses medos e termos a certeza que está tudo bem connosco. E isso mesmo aconteceu comigo, agora que sei que não há nada de errado comigo, que é o meu organismo que responde desta forma, é não ligar e seguir a vida. Sem medos :)

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    1. fazes parecer tão simples hahah mas é uma batalha e tanto, pelo menos para mim heheh eu também tenho pulsação horrivelmente rápida, chega a ser irritante à noite quando quero dormir e consigo sentir a pulsação ou até mesmo ouvir (sabes quando os ouvidos fazem das suas e ficam meios tapados e consegues ouvir a pulsação?) hahahah
      enfim, beijinho e desculpa o atraso em responder!

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    2. Sei, isso acontece-me quando estou incrivelmente cansada, principalmente depois de correr ou praticar algum tipo de exercício físico que exija muito esforço, pois de contrário, nunca me acontece felizmente.
      Eu sei que é mais fácil falar do que fazer, mas também sei que és uma lutadora e que vais conseguir. Força!!

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  4. Desculpe invadir o espaço, não sei se é só para meninas. Cheguei ate aqui fazendo uma pesquisa sobre os efeitos do medicamento que estou usando para combater a síndrome do pânico e, medo pra mim hoje mudou de significado... meu psiquiatra me orientou tomar uma gota ontem (que foi me dado o diagnóstico), hoje tomei 2 gotas. Ontem fiquei mal por causa do remedio mas nao tive medo, fiquei ate feliz, mas hoje, foi a pior das crises, ja que se misturou com os ja terriveis sintomas do pânico, mas agora ja estou melhor e fico pensando... amanhã tenho que tomar 3 gotas e assim sucessivamente ate chegar no décimo dia e tomando 10 gotas... Será que consigo? .... dureza =/

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    1. Oh, nada disso! Este espaço é para quem quiser se informar mais sobre o que nós passamos diariamente, do síndrome de pânico à hipocondria!
      Por isso esteja SEMPRE à vontade!
      Olha, conheço casos em que a medicação fez muito bem, mas nunca dependa apenas dela. Tem de haver um acompanhamento honesto e detalhado com médico e psicólogo/terapeuta/psiquiatra. Senão corremos o risco que nos viciarmos na medicação e de não crescermos enquanto ser humano, entende?
      No meu caso, não quis tomar medicação com medo de ficar viciada, visto que antes de iniciar tratamento com profissionais, eu viciei em analgésicos. Para você ver como é tudo psicológico: analgésico não tem NADA haver com o síndrome do pânico, mas eu tomava aquilo convencida que ia melhor, e melhorava. Mas lá está, depois o medo é maior e começamos a aumentar doses, aumenta aumenta e nunca mais saímos dali. Por isso procurei ajuda e larguei medicação. Por isso, se for optar por medicação faça SEMPRE acompanhado com médico e tudo mais. Nunca faça auto-medicação e nunca atropele as recomendações do médico. Siga tudo à risca! Ok? :)

      Comentários como o seu, de ordem urgente, levam-me sempre a avisar no blog do remetente que já respondi, mas como você não tem blog, fica aqui a resposta na esperança que você veja mais tarde. Qualquer coisa, tem o meu contacto no separador «Contacto» e aqui do lado direito ;) Força!

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    2. Ora essa :) à vontade e força!

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  5. O meu pai sofre de ansiedades e vejo de perto o sofrimento dele. Digo-te o que lhe digo: há que superar passo a passo esses medos. Cada passo em frente é uma conquista! Festeja os passos que conseguiste dar :) E força para os próximos.

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    1. é um dia de cada vez ;) isso mesmo!
      beijinho e obrigada!

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  6. Não acho que seja de todo egoísta da tua parte queixares-te/teres medo dessas "cercas" que te prendem só porque existem pessoas com problemas maiores. É algo que simplesmente nem se compara, vai haver sempre alguém "mais" que nós: mais bonito, mais feio, mais triste, mais feliz, e por aí adiante. Tu és tu, tens os teus problemas como qualquer pessoa tem e por isso adaptas as metas a atingir à tua própria situação. Por isso e pela tua consulta, tenho a dar-te os parabéns. As conquistas não vêm todas de uma vez, mas vão aparecendo e é o que importa :)

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    1. oh, era isto que precisava ler :D obrigada A!
      beijinho e desculpa a demora a responder! mas tenho andado a mil!*

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