Como tudo começou.

17:20

Tudo começou numa manhã. Tinha de me enfiar num carro e fazer uma viagem de 3 ou mais horas. Até aí tudo bem. Estava habituada desde criança a fazer viagens intermináveis de carro. Mas nada fazia prever o que ia acontecer.
A meio da viagem comecei a sentir tonturas, a visão ficou turva, o ritmo cardíaco estava a mil à hora, calafrios e suores. Não sabia o que fazer. Chorei desalmadamente ao pensar que estava a ter um ataque cardíaco.
Quando finalmente chegamos ao destino, já eu tinha passado pelo inferno and back. Todos entraram no restaurante, sentaram-se e eu fui a correr para a casa de banho. Lembro-me perfeitamente que me tranquei na casa de banho durante uma meia hora (não sei ao certo), a vomitar e cheia de tonturas, e uma fila enorme de pessoas se formou à porta. Uma vergonha. Minha mãe finalmente começou a levar a sério tudo o que estava a sentir (não levem a mal, ela sempre levou a sério mas só naquele momento é que viu realmente que era algo mais grave do que um simples mal-estar).
Fui levada para o Hospital. Eu, que sempre odiei hospitais, gritava agora por um. Só visto.
Atendimento foi rápido, mas para mim foi como se durasse meio século. Metam-me numa cadeira de rodas, porque não me aguentava em pé de tanta fraqueza e tonturas, deram-me água e disseram para fazer exercícios de respiração até ser atendida. Assim o fiz.
Nisto fui finalmente chamada. Entrei no consultório e o médico pede-me para descrever o que sinto.
«Tonturas, enjoo, fraqueza, tá tudo a andar à roda!».
A partir daqui, já pouco me lembro.
Sei que apanhei soro, provavelmente algo para a fraqueza que sentia, visto que não comia desde de manhã e não parava de vomitar. Saí do hospital, voltei ao restaurante, consegui comer uma sopa e o resto do dia correu como se nada tivesse acontecido.
Assunto encerrado - pensei.

Imagem retirada do Deviantart de criminal-defect


Até que tudo voltou. 
Com o stress de um novo ano lectivo, de uma nova turma onde não conhecia nem uma alma, os ataques voltaram. Lembro-me que tudo ecomeçou na primeira manhã de aulas. Comecei a sentir tudo o que já tinha sentido naquele único episódio da viagem. Com medo de voltar a passar por tudo outra vez, fiquei ainda mais nervosa e assim começou uma nova rotina matinal: chorava, pedia à minha mãe para que me deixasse faltar à aula, vomitava de tão nervosa que estava, não conseguia tomar pequeno-almoço, ritmo cardíaco super acelerado, tonturas,...enfim.

Foi assim de Setembro a Janeiro.
Durante esse tempo ainda fui a centro de saúde, médico de família, fiz exames de sangue e urina e...nada. Lembro-me que durante a altura da menstruação tudo piorava. As dores eram tantas que desmaiava e tinha de ser levada para o centro de saúde para apanhar soro. Imaginem só o stress que era nos dias anteriores. Já antevia tudo, sabia o que ia acontecer e não fazia de nada para interromper isso. Os enfermeiros e médicos do centro de saúde já até sabiam o dia em que lá ia de urgência para apanhar soro. Foram bastante atenciosos. Apesar do choque quando acordava do desmaio, eles sempre tentaram-me acalmar, deram-me dicas de relaxamento e tudo mais.
Mas era tudo tão recente e eu não sabia como reunir forças e enfrentar aquilo. Cansada de tudo aquilo, resolvi pesquisar sobre o assunto e ver se estava sozinha naquele «barco».
Já sabia pelas consultas que tinha ataques de pânico. Monstro identificado. Que comece o tratamento!


Já não me lembro onde, mas vi uma estatística que me tranquilizou bastante na altura. Era qualquer coisa como 5 em cada 10 pessoas sofrem de ataques de pânico.
Não desejo isto a ninguém, juro, mas ao ver esse estudo, não me senti tão sozinha.
Comecei então a encontrar em fóruns  Na altura não encontrei nem um em português por isso esses fóruns eram na sua maioria em inglês e castelhano. Conversa vai, conversa vem, começo a sentir que estava a voltar ao «normal». Foi lento. Um ano e tal que me deitei stressada ao pensar que de manhã ia sentir tudo aquilo outra vez. Não dormia direito. Mas sentia que o «normal» estava agora mais perto. Nunca seria o mesmo devido à minha experiência, mas sentia que já estava, pelo menos, a acostumar-me e a aceitar a ideia de que era doente e que precisava de ajuda.


Foi então que comecei a criar métodos só meus para amenizar o que sentia*. Lia, via séries, filmes, não saia sem o meu leque, pastilhas elásticas e garrafa de água, criava pequenos rituais e pelo caminho apanhei uns outros hábitos menos positivos como tomar paracetamol cada vez que me sentia mal. Sei que nada fazia, mas criei na minha mente a desculpa de «se tomar isto, tudo passa». E assim era. Era placebo para alma e corpo.
Cheguei a tomar uns 5 comprimidos por dia. Felizmente, não precisei de ajuda para largar tal vicio. Substitui esse vicio pela escrita. Mantive um pequeno diário durante aquele tempo, onde escrevia os meus medos, incertezas e pequenas conquistas.
Comecei a conseguir sair mais de casa. Até aqui era só casa, escola, escola casa - e mesmo assim, muitas vezes saia a correr do meio das aulas para casa porque estava muito nervosa de estar fora da minha «zona de conforto».
Lembro-me também que na altura, apesar de ter um grupo de amigos, ninguém sabia o que se passava comigo. Ainda perguntaram mas não insistiram. Só uns anos mais tarde ao ver que um colega meu estava a passar pelo mesmo, é que o puxei à parte e expliquei tudo e disse que não estava sozinho. Partilhei uns livros com ele, ajudei o máximo que pude e, apesar de não manter contacto com ele, ou pelo menos não falar tanto como antes, sei que ele encontra-se bem melhor.



Aos poucos fui retomando a minha vida.
Muito sinceramente acho que nunca voltarei ao que era antes. Aquele «normal» de antes deixou de existir. Criei um novo «normal».
Stress é impossível erradicar de nossas vidas. Vivemos dele e com ele. Na escola, trabalho, na rua. Por isso o que podemos e devemos fazer é aprender a viver com ele. Criar estratagemas, técnicas de relaxamento, de abstracção da mente.
Conselho rápido de hoje é: mal sentes que vem aí um ataque, vai fazer alguma coisa. Arruma o teu quarto, vai escrever, vai ouvir música, vai ver um filme, vai correr,...faz algo!
Sei que não é fácil. O medo é muito, mas tens de forçar o teu corpo e a tua mente a pensar e a fazer algo que te distraia dos ataques. Pode não correr bem na primeira tentativa, mas hey, nada corre. Tens de insistir! Força!


*Próximo post vou falar de técnicas de relaxamento que pratico e que pretendo começar a praticar. E prometo que o post não vai ser tão longo como este! ;p

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11 Comments

  1. Nunca conheci ninguém que sofresse de ataques de pânico.. Mas sinceramente deve ser uma coisa horrível pela forma como descreves..

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    1. Bom sinal :) Mas sim, é horrível. Se não se domina isto rapidamente, toma conta da tua vida.
      Mas há-de correr bem :) Fica atenta. Às vezes essas pessoas estão a sofrer em silencio e um simples «estou aqui» ajuda muito :)

      Obrigada pelo follow e pelo comentário Lolita! Beijinho*

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  2. Gostei do teu "depoimento" onde falas nua e cruamente do assunto, tal como é, sem medo ou vergonhas.
    Conheço mais pessoas, que tal como tu, sofrem ataques de pânico... Acredito que não seja nada fácil, mas com o tempo feliz ou infelizmente adaptamos-nos a tudo.
    E tu, pareces ter força suficiente para ultrapassar tudo isto!!
    Quanto há escrita, sim, faz tão bem... liberta-nos :)
    Um beijinho especial *

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    1. Oh , muito obrigada pelo teu comentário :')
      Tento fazer o melhor que posso para ultrapassar nisto. São dez anos nesta batalha e o que todos, como eu, temos de pensar é que nada será como aquele primeiro ataque. Aquele foi o pior, não sabíamos do que se tratava e pensávamos que íamos morrer. Agora com apoio e conhecimento de causa, tudo melhora...aos poucos, mas melhora :) e a escrita, sem dúvida, que ajuda! Oh se ajuda! :D
      Mais uma vez, muito obrigada!

      Beijinho*

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  3. Este é um assunto do qual estou muito pouco informada, não fazia ideia que estas situações se passassem desta forma, mas é sempre algo bom de se ter conhecimento. Ainda bem que estás a conseguir contornar o problema :)

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    1. Aos poucos vai-se controlando :)
      e é sempre bom estar informado, mesmo não se tendo conhecimento de nenhum amigo ou familiar com este programa, até porque ele aparece do nada a qualquer um.

      Muito obrigada pelo comentário e já está um novo post online ;)
      Beijinho*

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Nunca presenciei um ataque de pânico mas conheço quem tenha de enfrentar de perto e os relatos são semelhantes aos teus. Foi uma partilha muito honesta! E é muito importante que cada vez mais estes assuntos sejam discutidos e partilhados e que as pessoas tenham consciência e conhecimento dos mesmo. Obrigada! E boa sorte :)

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    1. Foi com esse objectivo que comecei este blog :) Obrigada

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  6. Só agora é que descobri este post, não fazia ideia. Já tive 3 ataques de ansiedade ao longo da minha vida, portanto identifico-me com essa fraqueza e dores fortes no peito de que falas. A última vez aconteceu à 3 anos, quando não entrei na faculdade na primeira fase. É uma sensação horrível. Tu lidas com esse "bicho" diariamente... Isso faz de ti uma guerreira! Admiro a forma como deste a volta e te encontras-te. E o lado positivo disto tudo é que encontraste o teu apoio na escrita, algo para o qual tens um enorme jeito! Mesmo não te conhecendo, fico orgulhosa por falares tão abertamente acerca deste assunto. E se precisares, estou aqui! ;) Beijinhos :3

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    1. mais vale tarde que nunca (?)...talvez heheh
      é todo o mote do blog: ataques de pânico e a minha recuperação. pelo meio vou falando de outras coisas porque a vida não é apenas esse abismo... e ainda bem :)
      wow, só três vezes, tens então muita sorte! o mal em pessoas como eu foi que me prendi muito àquele momento por isso ganhei um medo enorme em ter um outro ataque, entendes? e tu conseguiste fazer a separação! por isso, parabéns! és bem mais forte do que imaginas! :)

      muito obrigada pelos elogios! a sério :) fez-me sentir muito bem ao ler o teu comentário! Muito obrigada! Beijinho

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